Se vira nos 30

     É assim que começa o novo anúncio da Globo, alardeando que os 30 programas mais vistos no Brasil são feitos por ela: “O telespectador escolhe a Globo porque a Globo escolhe sempre a qualidade”. É uma meia verdade! Não que a qualidade da Globo seja discutível, às vezes é, mas é uma exceção e não a regra. O x da questão é a concorrência: os equívocos de Record e SBT, (supostas) postulantes à liderança, facilitam a escolha.
     A atração que abre o Top 30, “Viver a vida”, tem média de 64% dos televisores ligados sintonizados na Globo. No mesmo horário, a Record exibe “Bela, a feia”, uma atração bem feita, mas batida, que já foi ao ar em outros formatos no SBT e na RedeTV!. Já o SBT depende do dia da semana. Nas noites de quinta, por exemplo, exibe a mediana série “Sobrenatural”. Tem uma audiência abaixo da média.
     Mas qual o segredo para SBT e Record incomodarem? Ora, se a ideia é desbancar a Globo, é preciso respeitar o hábito do brasileiro de ver novela às 9 da noite e exibir, na mesma faixa, boas e novas tramas, que sejam capazes de, aos poucos, irem “roubando” a audiência. Não existe fenômeno a ponto de estrear uma novela e, do dia para a noite, liderar tal horário. É uma ação que leva tempo.
     Sem falar, é claro, na estratégia: têm que começar suas produções um pouco antes da Globo e tentar cooptar o telespectador que não assiste o “Jornal Nacional”. Mas a Record faz o contrário: exibe simultaneamente ao “JN”, o terceiro programa mais visto do Brasil, o “Jornal da Record”, cópia piorada (mas não ruim) do que é feito na Globo. E, espelhando a líder, vai perder sempre.
     Enquanto isso, o SBT exibe um programa diferente a cada dia da semana, em sua faixa de show. Pode não ser a melhor tática, mas ao menos é um método próprio, que confia nas suas escolhas no lugar de clonar sua rival. As falhas do SBT (valem outra coluna) são outras, mas não falta de identidade.
     A Globo também se destaca em outros segmentos. No humor, “A grande família” atinge 56% de TVs ligadas. A Record vai para a briga com “Poder paralelo”. Aqui sim uma boa novela, texto excelente, mas que entra no ar muito tarde e ainda rivaliza com “Vende-se um véu de noiva”, do SBT. Ou seja, as duas brigam pela sobra de “Viver a vida”. Ambas perdem.
     A maior chance de se aproximar da Globo acontece aos domingos, atual dor de cabeça dos diretores do canal: o “Fantástico” tem “só” 41% de participação no horário, o que abre outros 59% para a concorrência. E o cansado “Domingão do Faustão” é apenas a 26º atração mais vista na Globo.
     Mas, no horário do “Domingão”, a Record exibe a sessão de filmes “Domingo aventura” – cópia da “Temperatura máxima”, só que mais tarde – e emenda com “Domingo espetacular” – cópia do “Fantástico”, só que mais cedo. Não funciona.  
     Sem falar na maior proeza da dupla SBT/Record nos últimos tempos: a disputa entre elas por apresentadores com triste saldo para as duas partes, já que triplicaram salários de Gugu Liberato, Ana Hickmann e Eliana, aumentaram os custos de produção e mesmo assim não incomodaram a Globo. A RedeTV!, enquanto isso, com o polêmico “Pânico na TV”, consegue resultados mais sólidos.
     A Globo, que assiste do alto aos equívocos das rivais, contou a vantagem: tem as 30 maiores audiências do Brasil. Mas não precisava do anúncio. Não é uma novidade. É a constatação do óbvio.

Uma resposta para “Se vira nos 30”

  1. A qualidade da baixaria « Analogia Digital Disse:

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